julho 23, 2026

[Resenha] Fahrenheit 451

Ainda lembro a cena. O professor de física entregou a prova e nela havia uma questão onde a resposta era o ponto de combustão do papel e eu lembro quando perguntei se não poderia apenas dar a resposta sem fazer o cálculo, pois havia lido o livro cujo título era esse número. Esse detalhe estava no enunciado. Não, o professor não deixou e eu não lembro como fiz para sair desse impasse. Só sei que a resposta eu acertei.

Os que vivem no conforto querem apenas rostos com cara de lua de cera, sem poros nem pelos, inexpressivos. Estamos vivendo num tempo em que as flores tentam viver de flores, e não com a boa chuva e o húmus preto.” Pág.108

Sinopse: Escrito após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1953, Fahrenheit 451, de Ray Bradubury, revolucionou a literatura com um texto que condena não só a opressão anti-intelectual nazista, mas principalmente o cenário dos anos 1950, revelando sua apreensão numa sociedade opressiva e comandada pelo autoritarismo do mundo pós-guerra. O livro descreve um governo totalitário, num futuro incerto, mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar contra o status quo. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instalados em suas casas ou em praças ao ar livre. A leitura deixou de ser meio para aquisição de conhecimento crítico e tornou-se tão instrumental quanto a vida dos cidadãos, suficiente apenas para que saibam ler manuais e operar aparelhos. (Sinopse completa: Skoob)

Guy Montag é bombeiro, mas diferente dos profissionais que conhecemos, a função dele não é apagar, mas sim causar incêndios. Mais especificamente queimando livros. Objetos proibidos que colocam em risco o equilíbrio e a harmonia de sua realidade. Mas, tudo muda no dia que ele vai atender uma denúncia e uma das pessoas se recusa a abandonar os livros sendo queimada junto com eles. Montag começa a questionar a realidade e uma vizinha, Clarisse McCellan, surge com perguntas aleatórias deixando o protagonista ainda mais desassossegado.

Onde está o seu bom senso? Não há o menor acordo entre esses livros. Você ficou trancada aqui durante anos com essa malfadada Torre de Babel. Saia dessa situação! As pessoas nesses livros nunca existiram.” Pág.59

É fácil se identificar com a inquietação do protagonista pela passividade de uma sociedade que não questiona nada, só aceita as coisas como estão porque se sentem bem com elas ou, pelo menos, acreditam nisso. Não sabem do mundo fora de casa, se há guerras ou fome, apenas vivem suas vidas dentro de suas bolhas em total falta de empatia. Esse aspecto deixa bem claro a falta que a leitura faz nessa sociedade distópica, infelizmente muito parecida com a nossa.

O teor realista e próximo da nossa realidade com a simplificação do entretenimento, o excesso de telas e a busca pelo prazer, a dopamina barata, chega a ser assustador. Impossível não pensar no que estamos vivendo, onde muita gente já não é capaz de interpretar um texto e alguns estão até mesmo abrindo mão de pensar por conta própria com a justificativa de economizar tempo. Acredito que esse comportamento trará consequências indesejáveis a longo prazo, tanto no aspecto coletivo quanto no pessoal.

— Eles querem saber o que eu faço com o meu tempo. Eu digo a eles que às vezes eu apenas me sento e penso. Mas não lhes digo em quê. Eles que descubram.” Pág.42

A história tem muitos momentos tensos de ação, mas também partes em que Montag reflete sobre o que está vivendo e até descreve algumas situações de forma um tanto poética. Acredito que o autor tenha usado esse recurso para nos colocar na pele do protagonista ao começar a questionar sua realidade enquanto muitos a sua volta acreditam que está tudo muito bem e ainda se irritam com os questionamentos dele. Apesar de ter deixado a leitura um pouco mais lenta para mim, foi um toque certeiro para nos fazer sentir a angústia de Montag nesse processo.

Eu gostei muito de reler esse livro pela primeira vez. 😅 Sim, pelo pouco que eu me lembrava acho que posso considerar primeira leitura. Foi um pouco diferente do que eu esperava, mas gostei, apesar de ser angustiante um livro de ficção publicado pela primeira vez em 1953 ser tão próximo da nossa realidade.

As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo nas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver noventa e nove por cento delas está num livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo por uma coisa, uma pessoa, máquina ou biblioteca.” Pág.111

Um aviso para quem tem essa edição e ainda não conhece a história: não leiam o PREFÁCIO caso não queriam saber detalhes importantes da trama e inclusive o desfecho do protagonista. Eu comecei a ler e ao perceber que estava recebendo informações demais parei, só retornando ao prefácio depois de terminar. Entendo que é um livro publicado há muito tempo, mas nem por isso precisavam estragar a experiência de quem ainda não teve a oportunidade de ler com um texto tão revelador sem o menor aviso a respeito disso.


Título original: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Cid Kinpel
Páginas: 216
Editora: Globo Livros
Ano: 2012
Link do livro no Skoob: Fahrenheit 451

Vocês já tiveram a oportunidade de ler esse livro? Ficaram com vontade de ler? Gostam de distopias ou elas estão assustadoramente cada vez mais parecidas com a realidade?

16 comentários:

  1. Oi, Helaina! Jamais tive a fortuna de explorar as páginas deste livro, mas, à luz de sua resenha, sinto-me persuadido de que sua leitura me traria satisfação. É bom saber que você se deleitou tanto com essa nova releitura não é? O presente mundo parece se tornar cada vez mais assustador, não acha? Para onde isso nos conduzirá é um mistério profundo, mas tenho a impressão de que não nos reserva nada de auspicioso, considerando o curso que estamos seguindo. Sua resenha é, de fato, admirável e muito bem elaborada. Um abraço fraterno querida.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Luciano. É uma boa história e conversa tanto com nosso dia a dia que, apesar de já bem famosa, merecia receber mais atenção. Muitas pessoas a conhecem, mas, igual a você, não tiveram a oportunidade de ler. Fico feliz que tenha gostado da resenha. Abraço!

      Excluir
  2. "um livro de ficção publicado pela primeira vez em 1953 ser tão próximo da nossa realidade"... Já tinha ouvido falar. Fiquei com vontade de ler.
    Grata. Beijinhos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Espero que você tenha a oportunidade de ler e goste!
      Beijos;

      Excluir
  3. Oi, Helaina!
    Começando pelo fim: o prefácio poderia ser um posfácio, não?
    Quanto mais eu leio as notícias da vida real, mais eu me sinto nesse universo distópico. Eu ainda não li este livro, mas ele está na minha lista.

    Um beijo,
    Fernanda Rodrigues | contato@algumasobservacoes.com
    Algumas Observações
    Projeto Escrita Criativa

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Fernanda. Nossa, com certeza! A medida que fui lendo e percebendo que tinha detalhes demais ali eu parei, mas peguei mais informações do que eu queria mesmo assim. O livro até tem um posfácio, se não estou enganada, mas do próprio autor. Pode ser por isso que esse, escrito por outra pessoa, ficou no início. Vale muito a leitura, apesar de ser angustiante.

      Beijos;

      Excluir
  4. Oi Helaina! Eu pretendo ler e agradeço pela dica de não ler o prefácio, com certeza me faria desistir se pegasse spoiler. Incrível como uma obra escrita faz tanto tempo ainda converse tanto como nosso mundo atual. Estou bem animada para conhecer.

    Bjos!!
    Boa semana!
    Moonlight Books
    @moonlightbooks

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Cida! Se pegar essa edição melhor mesmo. Fiquei de cara com praticamente um resumo da história com desfecho e tudo! Pois é, deixa a gente chocada e reflexiva.
      Beijos!!
      Boa semana pra você também!

      Excluir
  5. Olá,
    Acho que é essa edição que tenho no Skeelo. Obrigada pelo aviso pq isso aconteceu comigo quando fui ler O Morro dos Ventos Uivantes e estava contando tudo no prefácio kkkkk
    E vc conseguiu lembrar dessa cena com professor? E era boa na matéria, eu era péssima em Física e Química kkkk uma vez quase fiquei reprovada.
    Fiquei bem curiosa com alguns pontos da sua análise, ainda mais comparando com traços tristes do que a gente tá vivendo. Fico horrorizada quando entro no twitter pra ler notícias e surge umas postagens das pessoas nesse nível que vc citou.

    p.s.: amei a ideia do terço. Minha bisa me deu um antes de falecer, preciso procurar ele... quem sabe todo domingo eu consiga fazer. Eu faço minhas orações antes de dormir todos os dias normalmente, mas poderia incluir o terço no domingo de manhã também...
    Não sei o motivo, mas atualizei o Edge e ele tirou o google como buscador principal e colocou o Bing kkkk difícil saber quem está pior. Não conhecia o que vc falou...
    Eu meio que já desisti com o feed do Instagram, essa semana piorou o que já tava. Agora mostra postagens de perfis que não sigo de patrocínio, sugeridos e os que o povo dá RT. Mesmo usando aquela ferramenta de suspender por 30 dias. hahaha
    Fiquei feliz em saber que vc tá super se dedicando a dança, pois já percebi que é algo que vc ama. Não desista e continue indo, faz muito bem pra mente também!

    Espero que logo o universo olhe para nós, mulheres de 40 que querem vida financeira estável hahaha com um emprego saudável.

    até mais,
    Canto Cultzíneo

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Nana. Eu entendo que são histórias publicadas há muito tempo, mas tem gente que nunca teve a oportunidade de ler, né?! Custava nada avisar! Química eu era muito ruim, mas em Física eu mandava bem Acredito que boa parte foi por conta de assistir muito "O Mundo de Beakman". Olha, o jeito que o autor acertou (aproximado) o que está acontecendo, acho que nem vidente acerta.

      p.s.: espero que você encontre o terço e as orações multipliquem as bênçãos na sua vida! ❤️ Eu ainda uso muito o Google, mas quando quero imagens, o DuckDuckGo me atende melhor. O meu tem dia que mostra umas coisas que me interessam, mas tem dias que tá tão aleatório que eu acabo usando menos o app. Mente e corpo agradecem!

      Amém!
      Até mais;

      Excluir
  6. Parece ser uma leitura surpreendente. Adorei a sua resenha.

    Boa semana!

    O JOVEM JORNALISTA está no ar cheio de posts novos e novidades! Não deixe de conferir!

    Jovem Jornalista
    Instagram

    Até mais, Emerson Garcia

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico feliz que tenha gostado!
      Uma boa semana para você também!

      Excluir
  7. Oi!
    Tenho um pouco de vontade de reler esse livro, as minhas experiências com clássicos variam bastante e esse eu achei uma leitura de ok para boa, e queria revisitar de novo com novos olhos.

    https://deiumjeito.blogspot.com/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi! Eu confesso que tinha outra expectativa, mas não posso querer ter os mesmos sentimentos que eu tinha na adolescência. Acredito que o fato do livro parecer muito mais ficção do que realidade naquela época deve ter ajudado para que a leitura não fosse tão agoniante.

      Beijos;

      Excluir

Agradeço muito a sua visita! Deixe um comentário!

- Atenção: Ao comentar você concorda com as políticas de comentários do blog.
Saiba mais: Políticas de Comentários.

Todos os comentários são revisados antes da publicação.
Obs: Os comentários não publicados pela autora não refletem a opinião do blog.