Ainda lembro a cena. O professor de física entregou a prova e nela havia uma questão onde a resposta era o ponto de combustão do papel e eu lembro quando perguntei se não poderia apenas dar a resposta sem fazer o cálculo, pois havia lido o livro cujo título era esse número. Esse detalhe estava no enunciado. Não, o professor não deixou e eu não lembro como fiz para sair desse impasse. Só sei que a resposta eu acertei.
“Os que vivem no conforto querem apenas rostos com cara de lua de cera, sem poros nem pelos, inexpressivos. Estamos vivendo num tempo em que as flores tentam viver de flores, e não com a boa chuva e o húmus preto.” Pág.108
Sinopse: Escrito após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1953, Fahrenheit 451, de Ray Bradubury, revolucionou a literatura com um texto que condena não só a opressão anti-intelectual nazista, mas principalmente o cenário dos anos 1950, revelando sua apreensão numa sociedade opressiva e comandada pelo autoritarismo do mundo pós-guerra. O livro descreve um governo totalitário, num futuro incerto, mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar contra o status quo. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instalados em suas casas ou em praças ao ar livre. A leitura deixou de ser meio para aquisição de conhecimento crítico e tornou-se tão instrumental quanto a vida dos cidadãos, suficiente apenas para que saibam ler manuais e operar aparelhos. (Sinopse completa: Skoob)
Guy Montag é bombeiro, mas diferente dos profissionais que conhecemos, a função dele não é apagar, mas sim causar incêndios. Mais especificamente queimando livros. Objetos proibidos que colocam em risco o equilíbrio e a harmonia de sua realidade. Mas, tudo muda no dia que ele vai atender uma denúncia e uma das pessoas se recusa a abandonar os livros sendo queimada junto com eles. Montag começa a questionar a realidade e uma vizinha, Clarisse McCellan, surge com perguntas aleatórias deixando o protagonista ainda mais desassossegado.
“Onde está o seu bom senso? Não há o menor acordo entre esses livros. Você ficou trancada aqui durante anos com essa malfadada Torre de Babel. Saia dessa situação! As pessoas nesses livros nunca existiram.” Pág.59
É fácil se identificar com a inquietação do protagonista pela passividade de uma sociedade que não questiona nada, só aceita as coisas como estão porque se sentem bem com elas ou, pelo menos, acreditam nisso. Não sabem do mundo fora de casa, se há guerras ou fome, apenas vivem suas vidas dentro de suas bolhas em total falta de empatia. Esse aspecto deixa bem claro a falta que a leitura faz nessa sociedade distópica, infelizmente muito parecida com a nossa.
O teor realista e próximo da nossa realidade com a simplificação do entretenimento, o excesso de telas e a busca pelo prazer, a dopamina barata, chega a ser assustador. Impossível não pensar no que estamos vivendo, onde muita gente já não é capaz de interpretar um texto e alguns estão até mesmo abrindo mão de pensar por conta própria com a justificativa de economizar tempo. Acredito que esse comportamento trará consequências indesejáveis a longo prazo, tanto no aspecto coletivo quanto no pessoal.
“— Eles querem saber o que eu faço com o meu tempo. Eu digo a eles que às vezes eu apenas me sento e penso. Mas não lhes digo em quê. Eles que descubram.” Pág.42
A história tem muitos momentos tensos de ação, mas também partes em que Montag reflete sobre o que está vivendo e até descreve algumas situações de forma um tanto poética. Acredito que o autor tenha usado esse recurso para nos colocar na pele do protagonista ao começar a questionar sua realidade enquanto muitos a sua volta acreditam que está tudo muito bem e ainda se irritam com os questionamentos dele. Apesar de ter deixado a leitura um pouco mais lenta para mim, foi um toque certeiro para nos fazer sentir a angústia de Montag nesse processo.
Eu gostei muito de reler esse livro pela primeira vez. 😅 Sim, pelo pouco que eu me lembrava acho que posso considerar primeira leitura. Foi um pouco diferente do que eu esperava, mas gostei, apesar de ser angustiante um livro de ficção publicado pela primeira vez em 1953 ser tão próximo da nossa realidade.
“As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo nas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver noventa e nove por cento delas está num livro. Não peça garantias. E não espere ser salvo por uma coisa, uma pessoa, máquina ou biblioteca.” Pág.111
Um aviso para quem tem essa edição e ainda não conhece a história: não leiam o PREFÁCIO caso não queriam saber detalhes importantes da trama e inclusive o desfecho do protagonista. Eu comecei a ler e ao perceber que estava recebendo informações demais parei, só retornando ao prefácio depois de terminar. Entendo que é um livro publicado há muito tempo, mas nem por isso precisavam estragar a experiência de quem ainda não teve a oportunidade de ler com um texto tão revelador sem o menor aviso a respeito disso.
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Cid Kinpel
Páginas: 216
Editora: Globo Livros
Ano: 2012
Link do livro no Skoob: Fahrenheit 451
Vocês já tiveram a oportunidade de ler esse livro? Ficaram com vontade de ler? Gostam de distopias ou elas estão assustadoramente cada vez mais parecidas com a realidade?
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