[Resenha] A Casa da Rua 40

Não sabia quanto o gênero fantasia estava me fazendo falta até esse livro. Quer dizer, eu sabia, mas nada mais fácil do que mentir para nós mesmos. Mergulhar numa história capaz de conduzir a cenários incríveis é uma forma maravilhosa de esquecer um pouco a realidade e exercitar o cérebro da melhor e mais prazerosa maneira possível.

Essa resenha não é publi, mas se eu for falar da amizade entre a minha família e a do autor, Marco Zuchi, daria um livro. Antes mesmo de eu nascer a proximidade proporcionou aquela relação boa entre vizinhos que já se estende por gerações. São muitos bons momentos compartilhados, entre feiras de artesanato e novenas de Natal e fiquei muito feliz ao receber de presente em mãos um exemplar de A Casa da rua 40. Essa resenha é minha forma de agradecimento.

“Prestar atenção na vida é tão importante quanto respirar, mas se demora muito para aprender isso.” Pág.24

Sinopse: Um versículo do Qohélet “Tenho visto tudo o que é feito debaixo do sol; tudo é inútil, é correr atrás de vento” foi a fagulha desta escrita, o ponto de partida para toda a história, que trouxe reflexões profundas e serviu de pano de fundo para todos os diálogos internos que compartilho neste livro. Cada personagem que ganhou vida em minha imaginação, cada lugar que me levaram a conhecer, funcionaram como “portas” que eu precisava abrir e atravessar dentro da minha cabeça. A Casa 7 é o ponto de partida para a Terra das Escolhas, um caminho necessário para encontrar o sentido da vida. Busquei ingredientes na minha infância, resgatei aprendizados que observei ao longo do caminho, nos erros, nos traumas, nas alegrias, nas boas e más lembranças, nas conquistas, nos causos descompromissados, e nas conversas fiadas entre amigos. O livro não fala de tristeza, muito pelo contrário, fala de “se encontrar verdadeiramente com a vida”. Ele é repleto de surpresas, questionamentos teológicos e existenciais; impasses filosóficos, boas risadas, dúvidas, inseguranças, questionamentos importantes para quem está tentando enxergar beleza na dádiva da vida no meio de tanta distração que a modernidade apresenta, com pitadas de um ingrediente principal o “inacreditável”, que entra em cena neste livro para nos apresentar o óbvio escondido bem perto da gente. (Sinopse completa: A Casa da Rua 40)

“A maior armadilha do homem é não querer ver as coisas como verdadeiramente elas são, mas ver as coisas como eles gostariam que elas fossem; esse é o princípio da distração, meu jovem.” Pág.148

O livro começa com Josué, um dos personagens principais da trama, já adulto tendo aquele momento de nostalgia ao lembrar de sua infância quando se mudou para a casa 7 da rua 40. Mas ele não está sozinho em suas divagações, pois Hebel, o vento que por vezes toma a forma de um tigre azul, está com ele. Mas a narrativa não fica presa apenas a memórias e um encontro inesperado é o gatilho para sermos transportados para a infância do protagonista.

Do interior do Quiriri do Meio para a cidade grande, Josué vai de coração apertado por deixar para trás o lar que ama e, depois de já acomodado na nova casa, precisa também se despedir do tio Benjamin, aquele tipo de adulto de bom coração que é a alegria das crianças, que precisa voltar para sua casa no interior. No entanto, para a alegria do menino, Josué descobre os memoráveis da rua 40, crianças muito receptivas que o aceitam no grupo e aos poucos vão se tornando amigos para a vida toda.

“Perceber a vida ao nosso redor, as dádivas, é o que importa. Se procuramos muito pelo sentido, nos perdemos em querer encontrar apenas o que nos agrada, e no final acabamos encontrando muito pouco, ou quase nada, pois, nada faz muito sentido por esse ponto de vista.” Pág.405

Mas essa não é a grande aventura do protagonista. Algo inacreditável e mágico está para acontecer e o misterioso Sr. Telésforo é parte importante na trama assim como os antigos moradores da casa, os Brugs, que levarão Josué muito mais longe do que ele jamais imaginou. Um novo mundo se revela atrás de uma porta onde ele conhece Marmô, a menina da cabeça de nuvem, que ao lado dos guardiões da escolha, precisa desbravar as terras de Karimir em uma incrível jornada cheia de desafios e derrotar Hata (Breu), cuja influência já pode ser sentida além das fronteiras de Karimir, invadindo a única realidade até então conhecida pelo menino.

“Mas, a fé de um coração só pode ser medida pela régua do desconhecido.” Pág. 149

Há uma profecia por trás de todos esses acontecimentos e o início dessa jornada, há muito tempo esperada e preparada, tem aquele gostinho familiar para quem leu ou assistiu As Cônicas de Nárnia. Com cenários e personagens onde o autor demonstra toda sua criatividade, nós somos imersos em uma aventura repleta de reflexões que nos leva a pensar sobre a vida e nossa relação com os outros. Minha escolha ao escrever essa resenha foi relatar o mínimo de detalhes possível para não tirar de vocês o gostinho das descobertas ao ler.

Apesar de ser uma fantasia cheia de nomes diferentes, tirando um ou outro que precisei ler mais de uma vez para entender, eu gostei muito do fato de a maioria ser fácil de pronunciar. Acredito que por ser uma fantasia escrita por um autor brasileiro a crianção dos nomes seguiu nosso idioma facilitando essa leitura.

Apesar de ser um livro longo, a leitura flui com facilidade e mesmo os capítulos grandes não são um problema para quem gosta de fazer pausas em pontos específicos, pois Marco Zuchi dividiu cada um em partes menores. A história é livre para todas as idades, mas por haver muitas reflexões, acredito que seja mais indicado ao público juvenil e adulto.

“Razão demais, um dia acaba virando raiva em si mesmo, e sempre volta para criar confusão na cabeça da gente.” Pág.333

“O que importa em sua jornada não se iniciou na Terra das Escolhas. Em um mundo fugas e instantâneos, em um lugar que tem pressa; eu venho lhe dizer que semear é ter fé, entregar ao tempo os seus cuidados; sobre as coisas que falam seu coração.” Pág. 216

A Casa da Rua 40 tem potencial para a adaptação em forma de filme ou série tanto pela história em si, quanto pelos cenários explorados. O autor incluiu várias ilustrações e inclusive o mapa de Karimir no livro e isso despertou minha curiosidade para ver como ficaria na tela. Elas estão presentes também na versão digital, mas versões impressas têm um charme extra e com esse livro não poderia ser diferente.

O livro tem conclusão, mas deixa um gancho para o próximo capítulo da aventura. Apesar de preferir livros únicos, como já mencionei tanto aqui quanto em comentários em outros blogues, esse detalhe não me fez gostar menos da história. No entanto, a extensão dele foi o fator mais desafiador. Como demorei muito para terminar, pela quantidade de pausas que fiz, acredito que perdi muitos detalhes simplesmente por esquecê-los. Notei isso ao escrever essa resenha e folhear o livro.

Quem estiver a fim de se aventurar, A Casa da Rua 40 está disponível na Amazon no formato impresso, e-book e também gratuitamente no Kindle+. Vocês podem adquirir o exemplar aqui: saiba mais

“Quando achamos que já sabemos tudo, devemos inverter o ponto de vista para compreender que podemos não saber nada ainda, ou que parte ainda precisa ser aprendida.” Pág.315

Título: A Casa da Rua 40
Autor: M. Zuchi
Ilustradora: Aline Lima
Páginas: 464
Editora: M.Zuchi/Edição independente
Ano: 2026

“Josué, não é o homem que conta a história, mas, a história que encontra o homem. Ela sempre encontrará seu final, feliz ou não, dentro de você. Cabe a você encantá-las.” Pág. 47

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